DO SONHO E DA INTERPRETAÇÃO
03 Mar, 2025
Reproduzido dos blogs Sapo
Todos sabem o que é o sonho, quando sonham, mas ninguém se pode gabar de ter chegado à concepção inequívoca do que, em termos psicológicos, devemos entender de haver ou não necessidade de sonhar e de haver ou não significado naquilo que se sonhou. Freud e Jung investigaram séria e profundamente toda a arquitectura do sonho e muito escreveram sobre os símbolos contidos nos sonhos e a sua interpretação. Cuidado, porém, porque a interpretação dos sonhos como a querem e vendem os feirantes do mistério e da superstição nada interpreta do sonho do cliente, mas muito pode conter de quem faz a pretensa interpretação. Diga-se também, que de pouco ou nada valerá recorrer aos dicionários fáceis da matéria, onde cair um dente é morte de parente.
Por muito que nos espante e custe a crer, parece que não se pode negar a existência de sonhos premonitórios, ou mesmo proféticos. Mas só quem os tenha não terá dúvidas. De qualquer forma, o interesse maior da generalidade das pessoas prende-se com o sonho natural comum, aquele onde o inconsciente trai o exercício da autocensura, censura que se retoma ao acordar e que vai poluir e deturpar o que foi sonhado, tornando falsa a recordação.
O que se tem como assente, é que o sonho se manifesta num território de liberdade e seria tão claro quanto o nosso acordar permitisse; o certo é que a nossa consciência vígil o não permite. Assim, a censura e contra vontade engendra os episódios caóticos que nos confundem. Julgando-os e querendo organizá-los coerentemente, deturpamo-los.
O sonho ignora o sim, o não e o talvez, não escolhe por simpatia nem rejeita por antipatia. No dizer de Freud, o sonho é um egoísmo sem limites e sem escrúpulos.
Se queremos interpretar um sonho não é ele em si mesmo que devemos ler, mas aquilo que manifesta. Perder um dente será certamente uma manifestação de perda, mas não tem de ser de parente, nem sará sequer de qualquer perda iminente, mas de receio dessa perda.
Interpretar um sonho requer despirmo-nos de preconceitos e dividir o mesmo no maior número de elementos possível, tentando associar cada um a símbolos, desejos, frustrações, contrariedades, pudores, etc.
O sonho é uma forma de pensamento que a razão não controla e deve ser interpretado como quem divide orações num texto difícil; deve de ser compreendido similarmente ao que um músico faz com uma boa orquestração.
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